Sumário
ToggleO Chile esteve imerso em um processo eleitoral decisivo no segundo turno, ocorrido em um domingo, dia 14. Os eleitores chilenos foram convocados a escolher entre propostas antagônicas, em um ambiente político que, conforme relatos, era dominado por uma crescente preocupação com a violência. As eleições presidenciais e parlamentares de 2025 marcaram um ponto de virada, sendo as primeiras a ocorrer sob a modalidade de voto obrigatório após recentes alterações na legislação eleitoral do país.
A disputa polarizou-se entre José Antonio Kast, do Partido Republicano, e Carolina Jara, ex-ministra do Trabalho, representando o campo governista. O clima de apreensão em relação à segurança pública emergiu como um fator preponderante, influenciando diretamente as narrativas de campanha e as prioridades dos candidatos, suplantando, em grande medida, temas tradicionais como educação, saúde e previdência, que receberam menos destaque nas discussões públicas.
A Trajetória do Primeiro Turno e a Virada nas Pesquisas
A corrida eleitoral chilena apresentou uma dinâmica peculiar entre o primeiro e o segundo turno. Em 16 de novembro, a disputa inicial resultou na vitória de Carolina Jara, que obteve 26,9% dos votos válidos. José Antonio Kast, por sua vez, garantiu sua vaga no segundo turno ao alcançar 23,9% do eleitorado, ficando na segunda posição.
No entanto, o cenário de intenções de voto inverteu-se drasticamente no período que antecedeu o segundo turno. Dados agregados de quatro levantamentos eleitorais, compilados pela ferramenta Radar Electoral, desenvolvida pelo Instituto Res Publica, indicaram uma liderança de Kast. Até o final de novembro, período anterior à proibição da divulgação de pesquisas eleitorais, Kast registrava 48% das intenções de voto, enquanto Jara aparecia com 34%. Um contingente significativo de 18% dos eleitores permanecia indeciso, tornando a reta final da campanha crucial para a definição do resultado.
As Alianças Políticas e a Fragmentação da Direita
A composição das forças políticas no segundo turno foi moldada por apoios estratégicos e pela configuração inicial dos blocos. A candidatura de José Antonio Kast recebeu o respaldo de figuras importantes da direita que haviam sido derrotadas no primeiro turno. Johannes Kaiser, do Partido Nacional Libertário, e Evelyn Matthei, do Chile Vamos, manifestaram apoio a Kast, consolidando um bloco mais amplo à direita.
Essa unificação no segundo turno contrastava com a fragmentação que caracterizou a direita no primeiro escrutínio em novembro. Diferentemente do campo governista, a centro-esquerda já havia definido sua candidata por meio de primárias realizadas em junho, designando Carolina Jara como a representante da coalizão. A Directorio Legislativo, uma organização que monitora as democracias na América Latina, observou que essa articulação parecia favorável à projeção de Kast. O panorama político chileno, que historicamente viu coalizões de centro-direita e centro-esquerda alternarem-se no poder desde a redemocratização, deparou-se, em 2025, com um aumento notável dos discursos antipolítica, refletindo um descontentamento generalizado da população.
As Plataformas e Estratégias dos Candidatos
As campanhas dos dois candidatos foram estrategicamente centradas em questões que ressoavam diretamente com o sentimento popular. A decepção com as promessas não cumpridas do governo Boric e a percepção de um aumento da insegurança, mesmo que os dados estatísticos fossem considerados baixos em comparação com a média regional, tornaram-se os pilares das propostas.
José Antonio Kast: Ordem e Linha-Dura na Segurança
José Antonio Kast, um advogado de 59 anos e ex-deputado do Partido Republicano, destacou-se por suas opiniões conservadoras e por um histórico de rompimento com a direita mais tradicional. Em sua campanha, ele se posicionou como uma figura capaz de promover uma transformação substancial no Chile. Sua principal promessa de campanha foi a criação de um “governo de emergência” focado no combate à criminalidade. Kast associou a problemática da insegurança ao aumento da imigração, particularmente a de venezuelanos. Em resposta a essa percepção, propôs medidas como a expulsão de estrangeiros em situação irregular e a implementação de uma política de tolerância zero contra o crime organizado.
Durante seus comícios, a seriedade da questão da segurança foi evidenciada pela presença de um vidro blindado protegendo o candidato. Contudo, em uma aparente moderação de discurso em comparação com suas tentativas eleitorais anteriores, Kast evitou aprofundar-se em temas sensíveis como direitos humanos, casamento igualitário ou a ditadura de Augusto Pinochet, que perdurou de 1973 a 1990. Essa mudança de foco indicava uma tentativa de direcionar a atenção dos eleitores para questões consideradas mais urgentes pela população.
Carolina Jara: Redução da Desigualdade e Estado Forte
Carolina Jara, advogada e administradora pública de 51 anos, que ocupou o cargo de ex-ministra do Trabalho, representou o Partido Comunista. Em sua plataforma, Jara defendeu políticas voltadas para a redução das desigualdades sociais e o fortalecimento do papel do Estado. Ela impulsionou medidas como a redução da jornada de trabalho e uma reforma previdenciária. Em um gesto estratégico, a candidata declarou que, caso fosse eleita, se desvincularia da militância do Partido Comunista.
No tocante à segurança pública, Jara afirmou que, sob um eventual governo seu, o crime organizado seria confrontado por um Estado robusto, preparado para desarmar e prender criminosos, prometendo uma série de ações policiais logo nos primeiros dias de mandato. Além disso, ela manifestou a intenção de incorporar propostas de outros candidatos derrotados, como a eliminação do IVA (Imposto sobre Valor Agregado) sobre medicamentos, uma ideia originalmente defendida por Franco Parisi, que obteve o terceiro lugar no primeiro turno e possui grande apelo na região norte do país e nas redes sociais.
O Voto de Protesto de Franco Parisi e seus Desdobramentos
Franco Parisi, líder do Partido Popular, emergiu como um fenômeno nas redes sociais e conquistou um significativo apoio, especialmente no norte do Chile, garantindo o terceiro lugar no primeiro turno. Seu eleitorado foi caracterizado pela Directorio Legislativo como “ideologicamente diverso, mas com um forte componente de descontentamento, sentimento antiestablishment e grande preocupação com a segurança e a economia”.
No período pré-segundo turno, ambos os candidatos, Kast e Jara, dedicaram esforços para atrair os quase 20% de eleitores que votaram em Parisi em novembro. Contudo, após uma consulta interna do Partido Popular, Parisi decidiu não endossar publicamente nenhum dos dois finalistas. A despeito dessa neutralidade oficial, a mesma consulta revelou que 20% dos participantes expressavam preferência por Kast, enquanto apenas 2% optaram por Jara, indicando uma inclinação do eleitorado de Parisi.
Os Desafios Finais Rumo ao Palácio de La Moneda
A reta final da campanha impôs desafios distintos a cada candidato na busca pelos votos dos indecisos e pela conquista do Palácio de La Moneda. Segundo Mauro Basaure, sociólogo e professor titular da Universidade Andrés Bello, Carolina Jara necessitava urgentemente de uma estratégia para se desvincular da imagem do governo atual e do Partido Comunista, especialmente em face de uma administração percebida como “fraca diante do crime organizado”. Para Jara, a consolidação da vitória dependia da construção de uma “narrativa convincente de autoridade democrática e capacidade de governar, não apenas de proteção social”.
No caso de José Antonio Kast, o sociólogo avaliou que, apesar de seus esforços em moderar o discurso, o candidato ainda enfrentava o ônus de ser percebido, tanto no âmbito nacional quanto internacional, como uma figura de ultradireita, o que poderia ser visto como incompatível com os princípios do pluralismo democrático. O desafio crucial de Kast consistia em “passar uma imagem mais moderada sem perder a identidade: convencer a maioria amedrontada de que ele pode garantir a ordem sem se tornar uma ameaça aos direitos, às minorias e às regras do jogo democrático.”
O Panorama Legislativo Pós-Eleição
A composição do poder Legislativo também foi definida nestas eleições. Observou-se que, para um eventual governo de direita, a situação seria mais favorável no Parlamento. Contudo, independentemente do resultado presidencial, nenhuma das principais forças políticas conseguiu alcançar a maioria absoluta em ambas as Casas, sugerindo que o próximo governo enfrentaria a necessidade de extensas negociações e formação de coalizões para aprovar sua agenda legislativa.
Para se manter atualizado sobre os desdobramentos políticos e econômicos do Chile e da América Latina, acompanhe as análises especializadas e os relatórios mais recentes.
FAQ sobre as Eleições Chilenas
1. Quem foram os principais candidatos na eleição chilena?
Os principais candidatos foram José Antonio Kast, do Partido Republicano, e Carolina Jara, ex-ministra do Trabalho e representante do campo governista.
2. Qual foi o principal fator que dominou a campanha eleitoral chilena?
O principal fator que dominou a campanha foi a crescente preocupação com a violência e a insegurança, influenciando diretamente as propostas e o discurso dos candidatos.
3. As eleições chilenas tiveram alguma característica legislativa inédita?
Sim, estas eleições foram as primeiras a serem realizadas com voto obrigatório desde uma mudança significativa na legislação eleitoral do país.



















