Vieses Comportamentais: o Inconsciente no Mercado Financeiro

A experiência de investidores que observam suas aplicações financeiras se desvalorizarem após a compra e valorizarem após a venda não é incomum. Da mesma forma, a hesitação em explorar alternativas de investimento além das modalidades tradicionais, motivada por perdas anteriores, reflete um padrão recorrente. Tais eventos, frequentemente atribuídos ao acaso, possuem uma raiz mais profunda na psicologia das decisões humanas, especialmente no âmbito financeiro. Especialistas em finanças comportamentais identificam nestes cenários a atuação de vieses, que são tendências inconscientes que direcionam indivíduos a comportamentos que podem ser irracionais em determinadas circunstâncias. A compreensão desses vieses é um instrumento valioso para evitar prejuízos, potencializar ganhos e otimizar a gestão de despesas.

A Origem e o Desenvolvimento das Finanças Comportamentais

O campo das finanças comportamentais consolidou-se no final do século XX, a partir das investigações pioneiras de dois psicólogos, Daniel Kahneman e Amos Tversky. As observações e teorias desenvolvidas por esta dupla questionaram a premissa de que as decisões econômicas são predominantemente racionais, um pilar fundamental da economia clássica. Suas pesquisas demonstraram que uma parcela significativa das escolhas financeiras é, na realidade, influenciada por preconceitos cognitivos e pela modulação de emoções intensas, como o medo ou a euforia. O reconhecimento da relevância de suas contribuições foi selado em 2002, quando Daniel Kahneman foi agraciado com o Prêmio Nobel de Economia. As descobertas de Kahneman e Tversky revelaram que os vieses podem levar os investidores a negligenciar suas estratégias pré-estabelecidas, resultando em ações de cunho irracional.

Os Vieses Cognitivos Fundamentais que Impactam Investidores

Dentre a vasta gama de vieses comportamentais que podem influenciar as decisões financeiras, alguns se destacam por sua recorrência e impacto substancial nos mercados e nos portfólios individuais. O conhecimento detalhado de cada um deles permite uma vigilância mais apurada sobre o próprio processo decisório.

Viés de Confirmação

Este viés ocorre quando um investidor já possui uma convicção a respeito de um ativo ou mercado e, de forma inconsciente, busca seletivamente informações, dados ou análises que corroborem essa crença preexistente. Simultaneamente, há uma tendência a descartar ou minimizar a importância de opiniões ou estudos que contradigam sua visão inicial. Por exemplo, se um investidor nutre uma predileção por uma determinada empresa, ele naturalmente dará maior peso a notícias e análises positivas sobre ela, enquanto subestimará quaisquer informações negativas.

Viés da Ancoragem

O viés da ancoragem manifesta-se quando o investidor se apega a um valor inicial, seja o preço de compra de uma ação ou de outro bem, e utiliza esse ponto de referência como a principal base para futuras decisões de venda. Essa fixação em um preço de aquisição impede a avaliação objetiva da situação atual da companhia ou das condições predominantes no mercado, levando o investidor a relutar em vender abaixo daquele preço, mesmo que a realidade sugira o contrário.

Aversão a Perdas

Considerado um dos vieses mais prevalentes, a aversão a perdas demonstra que os indivíduos sentem um desconforto significativamente maior ao experimentar uma perda do que a satisfação de um ganho de proporção equivalente. A dor de perder, por exemplo, R$ 100 é geralmente mais intensa do que a alegria de ganhar R$ 100. Essa assimetria emocional frequentemente leva o investidor a evitar riscos, mesmo em cenários com elevadas probabilidades de sucesso, comprometendo a diversificação do portfólio. Pode também resultar na venda precipitada de ativos que apresentaram valorização modesta e na manutenção de posições em ativos em queda, na esperança de uma recuperação improvável.

Efeito Manada

O efeito manada descreve a inclinação do investidor em seguir o comportamento da maioria do mercado de maneira irracional, o que é popularmente conhecido como “Maria vai com as outras”. Esse fenômeno é um dos principais catalisadores para movimentos abruptos e intensos nos mercados, contribuindo para períodos de valorização exuberante e, em situações extremas, para a formação e subsequente estouro de bolhas financeiras, ou, inversamente, para grandes quedas.

Excesso de Confiança

O excesso de confiança induz os investidores a subestimar os riscos e a superestimar suas próprias capacidades de prever os movimentos do mercado. Essa autoconfiança exacerbada pode levar à assunção de riscos incompatíveis com o perfil do investidor e com as condições reais do mercado.

Inércia

A inércia é caracterizada pela relutância em promover mudanças ou pela limitação dessas alterações a um nível que se mostra ineficaz. Este comportamento persiste mesmo em períodos de acentuada volatilidade ou de profundas transformações estruturais nos mercados, impedindo a adaptação necessária para otimizar os retornos.

Apego

O apego emocional a ativos financeiros adquiridos há muito tempo torna-os difíceis de serem desinvestidos, mesmo quando já cumpriram seu propósito ou não apresentam mais o desempenho esperado. Essa conexão afetiva sobrepõe-se à análise racional sobre a conveniência de manter ou vender tais posições.

A Influência das Emoções no Cenário de Investimentos

A maioria dos vieses cognitivos pode manifestar-se isoladamente ou em conjunto e, frequentemente, têm sua intensidade amplificada por emoções fortes, notadamente o medo e a euforia, que são forças dominantes no ambiente financeiro. Durante períodos de quedas acentuadas no mercado, o investidor dominado pelo medo pode reagir vendendo todos os seus ativos e abandonando estratégias de longo prazo, o que acentua os prejuízos. Por outro lado, em fases de forte valorização, surge a euforia e, em seguida, o temor de perder uma oportunidade (conhecido pela sigla em inglês FOMO – Fear Of Missing Out). A combinação desses sentimentos com o efeito manada pode impulsionar a formação de bolhas financeiras, que eventualmente culminam em colapsos de mercado (crashes).

Comportamento Humano x Inteligência nas Decisões Financeiras

Conforme observado por Martin Iglesias, responsável pela recomendação de investimentos no Banco Itaú, a maioria dos equívocos cometidos por investidores não se origina de uma deficiência intelectual, mas sim de aspectos comportamentais e da influência de emoções misturadas. Essas dinâmicas emocionais impedem os investidores de aproveitar plenamente as oportunidades que o mercado oferece. Iglesias argumenta que instrumentos como a renda fixa, com seus juros compostos, e as ações, que geram lucros e pagam dividendos, oferecem um caminho promissor para o sucesso nos investimentos, desde que erros comportamentais significativos sejam evitados.

Vieses Específicos do Investidor Brasileiro

Martin Iglesias identifica vieses adicionais que, de forma particular, atuam na mentalidade dos investidores brasileiros, complicando suas estratégias de investimento e, por vezes, a gestão de suas finanças pessoais de maneira mais ampla.

Viés de Presente

O viés de presente se manifesta na preferência por uma recompensa imediata em detrimento de um benefício futuro potencialmente maior. Esta característica é frequentemente observada em pessoas que enfrentam dificuldades em poupar dinheiro. Iglesias compara esse viés ao desafio de manter uma dieta equilibrada ou a regularidade na prática de exercícios físicos, onde a gratificação instantânea prevalece sobre os resultados de longo prazo.

Miopia

A miopia financeira é a tendência de focar excessivamente no curto prazo. No contexto da preparação para a aposentadoria, por exemplo, que exige um horizonte de investimentos de longo prazo, este viés leva o investidor a desistir ou a não aplicar em ativos com maior potencial de rentabilidade aos primeiros sinais de volatilidade do mercado.

Contabilidade Mental

A contabilidade mental ocorre quando o investidor categoriza seus investimentos em “caixinhas” separadas em sua mente. Essa compartimentalização pode gerar um sofrimento desproporcional diante da perda ou da volatilidade de um ativo específico, mesmo que a exposição total a esse ativo seja pequena. Um investidor que possua apenas 5% de seus recursos em ações, e essa parcela desvalorize 10%, pode sentir a perda como se tivesse perdido 10% de todo o seu patrimônio.

Familiaridade

O viés de familiaridade expressa a preferência por investimentos que são mais conhecidos e compreendidos pelo indivíduo. Iglesias utiliza a analogia da “pizza de marguerita”: mesmo ao explorar novas pizzarias com uma vasta gama de sabores, muitas pessoas optam por aquilo que já conhecem. Historicamente, a caderneta de poupança exemplificava essa preferência no Brasil, embora atualmente se observe uma transição para outros tipos de aplicação, como os investimentos atrelados ao juro diário (CDI), que se tornam o “novo conhecido”.

Home Bias

Associado à familiaridade, o “home bias” é um viés acentuado no Brasil, que consiste na tendência de investir exclusivamente no próprio país. Essa preferência limita a diversificação do portfólio e expõe o investidor de forma excessiva aos ciclos econômicos locais, aumentando a dependência de um único cenário macroeconômico.

O Efeito Retrovisor e Seus Componentes

Martin Iglesias destaca um conjunto de vieses que se interligam, culminando no que ele denomina efeito retrovisor, ou “return chasing”, que é a prática de projetar o futuro com base em dados passados. Este fenômeno é composto por diversas etapas comportamentais:

  • Recência: O investidor avalia o desempenho recente de uma ação ou fundo e conclui que essa performance se manterá constante no futuro.
  • Representatividade: O cérebro interpreta um padrão de comportamento de curta duração de um ativo como uma característica geral e permanente. Esse viés é amplificado pela busca por setores e ações “da moda”, muitas vezes impulsionada pelas redes sociais.
  • Excesso de Confiança: Após identificar um padrão e analisar o histórico, o investidor desenvolve a crença de ter descoberto a “fórmula do sucesso”, elevando sua confiança.
  • FOMO (Medo de Perder Oportunidade): O excesso de confiança e a crença em um padrão desencadeiam o medo de perder uma oportunidade de lucro, resultando em investimentos feitos sem a devida reflexão ou análise aprofundada.
  • Viés de Confirmação: Após a decisão de investimento impulsiva, o investidor inconscientemente busca notícias e informações que confirmem a validade de sua escolha, ignorando quaisquer dados desfavoráveis.

A recorrência desses comportamentos pode comprometer o potencial de ganho do investidor ou, em situações mais severas, ocasionar prejuízos. No entanto, para lidar com esses vieses, não é necessário buscar auxílio psicológico especializado. O passo mais importante e eficaz consiste no conhecimento desses vieses, permitindo que o investidor desenvolva estratégias conscientes para evitá-los ou, no mínimo, limitar seus impactos nas decisões cotidianas.

Para aprofundar seu entendimento e criar um plano de investimentos mais resiliente, explore as ferramentas de planejamento financeiro disponíveis e otimize suas escolhas.

Perguntas Frequentes

O que são vieses comportamentais nas finanças?

Vieses comportamentais em finanças são tendências psicológicas inconscientes que afetam a tomada de decisões de investimento, levando a escolhas que podem ser irracionais e contrárias aos objetivos financeiros de longo prazo, influenciadas por emoções e preconceitos cognitivos.

Quem são os precursores da teoria das finanças comportamentais?

Os precursores das finanças comportamentais são os psicólogos Daniel Kahneman e Amos Tversky, cujas pesquisas demonstraram que muitas decisões econômicas não são puramente racionais, desafiando as premissas da economia clássica e culminando no Prêmio Nobel de Economia para Kahneman em 2002.

Como o conhecimento dos vieses pode ajudar um investidor?

Conhecer os vieses comportamentais permite ao investidor identificar e compreender as inclinações irracionais que podem afetar suas decisões. Essa consciência é fundamental para desenvolver estratégias de mitigação, evitando armadilhas comuns, reduzindo prejuízos, potencializando ganhos e promovendo escolhas financeiras mais objetivas e alinhadas aos seus objetivos.

Fonte: https://www.infomoney.com.br

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