Sumário
ToggleA potencial aquisição da produtora de filmes e séries Warner Bros. Discovery por uma das gigantes do setor de streaming, seja Netflix ou Paramount, representa um ponto de inflexão significativo para o mercado audiovisual global e, em particular, para os modelos de negócio das redes de cinema e, por extensão, dos shopping centers no Brasil. O cenário atual, já caracterizado por desafios inerentes à transformação digital e às mudanças nos hábitos de consumo de conteúdo, tende a se intensificar diante da possibilidade de uma maior concentração de poder em plataformas de distribuição online.
O Contexto da Disputa Bilionária
A sexta-feira, dia 5, marcou o anúncio da proposta de compra da Warner pela Netflix. A oferta contemplava os estúdios de produção audiovisual, o serviço de streaming HBO Max e a renomada HBO, excluindo os canais de televisão pagos da Warner. Contudo, a dinâmica da negociação ganhou um novo capítulo na segunda-feira, dia 8, quando a Paramount apresentou uma contraproposta não solicitada, buscando adquirir a Warner Bros. Discovery em sua totalidade. Essa movimentação sublinha a intensa competição entre as empresas de mídia e tecnologia para solidificar suas posições em um mercado em constante evolução, onde o conteúdo é o principal ativo.
A iminência de tal transação gerou imediatamente reações no setor de exibição cinematográfica brasileiro. Representantes das principais redes de cinema do país, articulados pela Associação das Empresas Operadoras de Multiplex (Abraplex) e pela Federação das Empresas Cinematográficas (Feneec), expressaram preocupação ainda na sexta-feira, quando a Netflix parecia ser a única proponente. As entidades ressaltaram que a provável aquisição da Warner constitui mais um movimento em um processo acelerado de consolidação global, o que, em sua análise, concentra as decisões em um número limitado de plataformas. A observação central das associações apontou para o risco de que empresas com tal magnitude, ao controlarem diferentes etapas da cadeia de produção e distribuição, possam passar a ditar unilateralmente o ritmo dos lançamentos e a duração comercial das obras.
Consequências para o Setor Cinematográfico Nacional
Os operadores de cinema no Brasil manifestam apreensão quanto a uma possível diminuição da bilheteria. A expectativa é que a união de grandes corporações de mídia norte-americanas direcione uma parcela ainda maior da produção audiovisual para os ecossistemas de streaming. Tal direcionamento poderia resultar em uma menor oferta de filmes para as salas de exibição, criando “buracos” significativos na programação e, consequentemente, enfraquecendo a atratividade do calendário de estreias. Essa mudança no fluxo de conteúdo diretamente para as plataformas digitais coloca em xeque a sustentabilidade do modelo de negócio baseado na exclusividade e na experiência da tela grande.
A Questão da Janela de Exibição
Um dos aspectos mais sensíveis nesta discussão reside no período de exclusividade dos filmes nas salas de cinema antes de sua disponibilização em plataformas de streaming. A aquisição da Warner por um player de streaming levanta a possibilidade real de uma redução ainda maior desse intervalo, acelerando a migração das obras das telonas para o ambiente digital. Atualmente, o tempo médio entre a estreia de um filme nas salas e sua chegada aos serviços de streaming é de 45 dias. Em um passado não muito distante, na era do vídeo analógico, essa janela chegava a 120 dias, permitindo um ciclo de vida mais longo para as produções nos cinemas. A Abraplex e a Feneec defendem a implementação de uma regulamentação que estabeleça uma janela mínima de nove semanas, equivalente a 63 dias, argumentando que esse período é fundamental para a recuperação dos investimentos e a valorização da experiência cinematográfica.
Dados apresentados pelas associações indicam que aproximadamente 60% do público brasileiro não frequenta as salas de cinema, optando por aguardar a disponibilização dos filmes nos serviços de streaming. Esse comportamento, que reflete uma mudança cultural impulsionada pela conveniência do consumo doméstico, acentua a pressão sobre o modelo de negócio dos cinemas convencionais, que precisam competir não apenas com outras formas de entretenimento, mas também com a agilidade e o acesso fácil proporcionados pelas plataformas digitais.
Impactos no Mercado de Shopping Centers
A venda da Warner para um grupo de streaming também pode gerar implicações para a indústria de shopping centers no Brasil. Os cinemas tradicionalmente desempenham um papel relevante na atração de público para esses centros de compras, servindo como uma âncora para os populares “rolezinhos” e para o fluxo geral de visitantes. Um exemplo claro do impacto positivo foi o lançamento do filme Barbie, da Warner, em 2023, que gerou a maior bilheteria da história para o estúdio e atraiu multidões aos cinemas. Empresas como Multiplan e Iguatemi relataram, na ocasião, que o sucesso do filme contribuiu significativamente para o aumento do número de visitas e do volume de vendas em seus empreendimentos.
A Visão dos Especialistas do Varejo
Luiz Alberto Marinho, sócio-diretor da consultoria Gouvêa Malls, avalia que a potencial venda da Warner para um serviço de streaming é prejudicial para o setor de shoppings. A tendência de espremer ainda mais as exibições nos cinemas tem um efeito direto no fluxo de pessoas nos shoppings. Marinho observou que o grande desafio desses centros comerciais é precisamente atrair visitantes com regularidade, e a perda de frequência do público nos cinemas impacta a recorrência desejada. Ele traça uma correlação entre a diminuição da frequência nos cinemas – onde as pessoas atualmente vão apenas para grandes lançamentos e não mais para comédias românticas ou filmes menos midiáticos – e a queda nas visitas aos shoppings. Conforme dados da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), as visitas aos shoppings em 2023 estavam 22% abaixo dos níveis de 2019, antes da pandemia, enquanto a bilheteria dos cinemas registrava uma queda ainda maior, de 37% na mesma base de comparação. Para Marinho, as empresas de streaming tendem a preferir a produção de séries, que mantêm a audiência engajada por mais tempo e diluem os custos de produção, uma dinâmica que, no final, resulta na perda dessa audiência também para os shoppings.
Por outro lado, Cláudio Sallum, sócio da Lumine, administradora e consultoria de shoppings, pondera que a importância dos cinemas para os shoppings tem sido “diluída” ao longo dos últimos anos. Ele aponta que os empreendimentos têm diversificado seu mix de atrações, incorporando mais opções de lojas, gastronomia, serviços e lazer. Na sua perspectiva, qualquer impacto futuro seria limitado, visto que o cinema, em média, responde por cerca de 8% do movimento de pessoas nos shoppings anualmente. Uma eventual perda de 10% a 20% desse público significaria uma redução aproximada de 0,8% a 1,6% na visitação total. Sallum reconhece que a redução do intervalo de exibição de filmes pode diminuir o apetite pelos cinemas, mas enfatiza que a experiência de combinar um filme com um passeio no shopping, um jantar e compras é um hábito consolidado entre os brasileiros.
Na mesma linha de raciocínio, Alberto Serrentino, fundador da Varese Retail, expressa confiança na capacidade dos shoppings de se adaptarem a eventuais mudanças no comportamento dos consumidores. Ele destaca que os shoppings ajustam seu mix com base na análise da demanda e da evolução do gosto do cliente, não vislumbrando um risco sistêmico. Serrentino descreve o shopping como um “organismo vivo” e um “equipamento extremamente conveniente”, capaz de se reinventar e manter sua relevância diante dos desafios do mercado.
As propostas de aquisição da Warner por gigantes do streaming configuram um momento de intensa transformação para a indústria do entretenimento, com reverberações que se estendem desde as salas de cinema até os corredores dos shopping centers, exigindo adaptação e novas estratégias de todos os envolvidos na cadeia de valor.
FAQ – Perguntas Frequentes sobre a Venda da Warner
O que está em jogo na disputa pela Warner Bros. Discovery?
Na disputa pela Warner Bros. Discovery, estão em jogo os estúdios de produção audiovisual, a HBO e o serviço de streaming HBO Max, com propostas de compra apresentadas pela Netflix (inicialmente, sem os canais pagos) e pela Paramount (posteriormente, pela empresa inteira). A aquisição representaria uma significativa consolidação de poder no setor de mídia e entretenimento global.
Como a potencial venda da Warner pode afetar as redes de cinema no Brasil?
A potencial venda da Warner a um serviço de streaming pode afetar as redes de cinema no Brasil de diversas maneiras, incluindo a redução da oferta de filmes para as salas de exibição, a diminuição da bilheteria e, criticamente, o encurtamento da janela de exibição (o período de exclusividade dos filmes nos cinemas antes de irem para o streaming), o que desvalorizaria a experiência da tela grande.
Qual a relação entre o cinema e o fluxo de visitantes nos shopping centers, e como isso pode ser impactado?
Os cinemas são considerados âncoras importantes para o fluxo de visitantes em shopping centers, atraindo público para os chamados “rolezinhos” e incentivando o consumo em outras lojas e restaurantes. Se a venda da Warner impactar negativamente a frequência ou a atratividade dos cinemas, haverá uma potencial redução no fluxo de pessoas nos shoppings, embora especialistas apontem que a diversificação do mix de lojas e serviços e o hábito de combinar cinema com outras atividades mitigam parte desse risco.
Para aprofundar a compreensão sobre as dinâmicas do mercado audiovisual e seus impactos na economia brasileira, explore outras análises especializadas sobre o futuro do entretenimento e do varejo.
Fonte: https://www.infomoney.com.br



















