Um painel realizado em Belém, durante a COP30, reacendeu um debate crucial: qual seria o futuro do planeta sem a presença das vacas? A discussão centralizou-se no documentário “World Without Cows” (Mundo sem Vacas), um projeto global que explora a vida de pecuaristas em 20 países, com destaque para uma versão focada no Brasil, lançada no evento.
A sessão teve início com a exibição do segmento brasileiro do filme, intitulado “World Without Cows Brazil: The Battle for Balance” (Mundo sem Vacas Brasil: A Batalha pelo Equilíbrio). Este recorte nacional apresenta o cotidiano de produtores da região amazônica, abrangendo propriedades de diferentes tamanhos: 78 hectares, 4,8 mil hectares e 34 mil hectares. As imagens serviram de base para discussões sobre produtividade, uso da terra e a intrincada relação entre a pecuária e o clima.
Clodys Menacho, diretor comercial da Alltech, idealizadora do projeto, explicou que a iniciativa busca fomentar um diálogo menos polarizado sobre o papel da pecuária, apresentando dados científicos, combatendo a desinformação e colocando o produtor no centro da narrativa, evidenciando a conexão da atividade com a segurança alimentar, a geração de empregos e a cultura.
Dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) revelam que o rebanho global de bovinos é estimado em aproximadamente 1,5 bilhão de animais. Além disso, a produção pecuária é responsável por empregar cerca de 1,3 bilhão de pessoas em todo o mundo, com aproximadamente 600 milhões de domicílios mais pobres dependendo da criação de animais como fonte essencial de renda.
A produção de carne no Brasil continua a crescer, mesmo com a área de pastagens permanecendo estável. Esse avanço é atribuído ao aumento da produtividade, resultado de investimentos significativos em tecnologia, manejo e pesquisa.
Números revelam que metade dos cerca de 5 milhões de produtores rurais brasileiros se dedicam à criação de bovinos, sendo que 75% desse grupo são pequenos e médios produtores, responsáveis por 30% do rebanho nacional. O Brasil, detentor do segundo maior rebanho do mundo, assume um papel central no debate global sobre emissões, uso da terra e a oferta de proteína animal.
Um dos pontos levantados durante o painel foi o potencial de recuperação de pastagens degradadas. Estima-se que 40 milhões de hectares apresentem algum grau de degradação e possam ser revitalizados, tanto para expandir a produção sem desmatamento quanto para aumentar o sequestro de carbono no solo. A intensificação e a implementação de sistemas integrados oferecem a oportunidade de dobrar as áreas destinadas a grãos, pecuária e florestas plantadas, sem a necessidade de derrubar novas árvores.
A frase “um mundo sem vacas”, utilizada como lema do projeto, tem como objetivo provocar uma reflexão abrangente sobre os impactos econômicos, culturais, nutricionais e climáticos da pecuária. A mensagem central é que a atividade vai além da produção de carne e leite, integrando identidades locais e, quando conduzida de forma sustentável, contribuindo ativamente para a redução de emissões.
Altair Burlamaqui, pecuarista de Belém, compartilhou sua experiência de conciliar viabilidade econômica e conservação da vegetação nativa por meio da adoção de boas práticas de manejo e do uso de tecnologia em sistemas de produção na Amazônia.
Lily Tanui, líder climática da Federação Nacional dos Agricultores do Quênia, destacou a multifuncionalidade da pecuária queniana, que combina renda, alimento, simbolismo social e identidade de comunidades inteiras. Tanui defendeu a necessidade de mais investimentos em produção sustentável e em uma comunicação que permita aos próprios produtores compartilhar suas histórias.
Fonte: forbes.com.br


















