Professores negros: a luta antirracista que vai além de novembro

31.10. consciência negra

Professores negros em escolas públicas e privadas do Distrito Federal e Entorno transformam o Dia da Consciência Negra em um catalisador para discussões permanentes sobre racismo, identidade e pertencimento. Através de métodos pedagógicos diversos, narrativas pessoais e confrontos silenciosos, esses educadores demonstram que a luta contra o preconceito transcende o mês de novembro, representando uma construção diária fundamentada na vivência, na expressão e no enfrentamento de silêncios históricos e estruturas arraigadas pelo racismo.

Helder da Silva, professor de história e pedagogo com 15 anos de experiência na rede pública do DF, destaca os avanços e retrocessos na implementação da Lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana. Embora reconheça uma maior abertura, Helder argumenta que a efetivação da lei ainda não atingiu seu potencial máximo, com a cultura afro-brasileira sendo tratada de forma superficial e secundarizada. Ele critica a tendência de abordar a cultura negra apenas em novembro, focando em manifestações isoladas, o que impede que os estudantes compreendam suas raízes e a complexidade do país. Helder exemplifica com projetos como o livro “Saltei em Cuba e Vim Parar no Brasil” e um filme inspirado na filosofia Ubuntu, demonstrando a possibilidade de trabalhar a consciência negra de maneira profunda e conectada às experiências reais dos alunos.

Apesar de suas conquistas, Helder relata que sempre precisou trilhar seu próprio caminho, buscando materiais e projetos por conta própria. Ele lamenta a falta de acesso à produção literária e acadêmica brasileira, o que limita o trabalho dos professores, e relata micro-silenciamentos cotidianos que sofreu ao longo da carreira, como interrupções constantes e exclusão de reuniões, revelando o racismo estrutural presente no ambiente escolar.

O impacto da representatividade docente é evidente na história de uma ex-aluna que, ao reencontrar Helder, expressou gratidão pelos projetos desenvolvidos durante sua época de escola. Esse reconhecimento demonstra como a presença de professores negros pode fortalecer a autoestima e a identidade dos alunos.

Vanusa Alves de Carvalho, professora de Língua Portuguesa, também enfrenta desafios diários em sala de aula. Com 20 anos de experiência, ela se tornou uma referência para seus alunos, que se identificam com sua história de superação. Vanusa ressalta que a gestão escolar apoia suas iniciativas antirracistas, o que diferencia sua experiência da de muitos outros docentes. Apesar desse apoio, ela lida com manifestações de racismo por parte de alguns alunos, que questionam a importância da luta antirracista. Vanusa enfatiza a importância do letramento racial para identificar e combater o preconceito, e defende a necessidade de uma voz ativa na luta contra o racismo.

A antropóloga Jacqueline Moraes Teixeira, da USP e da UnB, reforça que o 20 de novembro é um marco simbólico importante, mas insuficiente para enfrentar um problema estrutural como o racismo. Ela defende que as práticas antirracistas devem ser incorporadas ao dia a dia das disciplinas e das relações escolares. Jacqueline destaca a importância da formação continuada de professores e do papel central das universidades nesse processo. Ela defende que a escola pública brasileira deve assumir seu compromisso de ser um espaço de disputa contra as desigualdades, revisando práticas pedagógicas, questionando currículos e ampliando referências.

Helder, Vanusa e Jacqueline personificam a resistência negra dentro da escola, que se manifesta diariamente através de ações que visam reafirmar a humanidade e a história de um povo que, por séculos, teve sua presença negada nesses espaços.

Fonte: jornaldebrasilia.com.br

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