Sumário
ToggleO aroma característico de um livro novo, frequentemente descrito como ‘perfume bibliotesco’, é um fenômeno complexo resultante da interação de múltiplos elementos. Longe de ser um mero acaso, essa experiência olfativa peculiar emerge de uma intrincada combinação dos ingredientes empregados no tratamento das folhas de papel, somados às especificidades da tinta utilizada na impressão e aos compostos da cola que unem as páginas. A percepção desse odor tão particular ocorre no instante em que um exemplar recém-adquirido é aberto, liberando uma série de substâncias voláteis que, em conjunto, compõem a fragrância única associada à leitura de um volume inédito. Compreender a origem desse cheiro envolve uma análise detalhada dos processos de fabricação do papel, da composição e aplicação da tinta, e da química da encadernação.
A Complexa Origem Olfativa: Uma Sinergia de Componentes
O processo de criação de um livro novo culmina na formação de um perfil olfativo distintivo, impulsionado pela liberação de compostos voláteis. Essa volatilidade é um atributo chave, pois permite que essas substâncias evaporem com facilidade, alcançando as narinas humanas. A principal fonte desses compostos é a própria folha de papel, cujos métodos de fabricação e tratamento são determinantes para a subsequente emissão de odores. Adicionalmente, a composição química da tinta empregada na impressão do texto e das ilustrações, bem como a natureza da cola utilizada no processo de encadernação, contribuem de maneira significativa para a formação do aroma final.
A Contribuição Fundamental da Água na Produção do Papel
A fabricação do papel, um componente essencial de qualquer livro, é um processo industrial que consome uma quantidade considerável de recursos hídricos. Estima-se que, ao longo de toda a cadeia produtiva, a confecção de uma única folha de papel no formato A4 requeira aproximadamente dez litros de água. Este volume substancial é empregado em diversas fases críticas da manufatura. Inicialmente, na produção industrial, a água desempenha uma função primordial no cozimento das lascas de madeira. Este tratamento é vital para amolecer e, consequentemente, dissolver as fibras lenhosas, transformando-as em uma polpa maleável. Após essa etapa de cozimento e dissolução, a água é novamente utilizada em um rigoroso processo de lavagem da massa celulósica. O objetivo dessa lavagem é remover qualquer resíduo indesejável e fragmentos que não foram completamente dissolvidos, assegurando a pureza e a qualidade da matéria-prima que dará origem às folhas de papel. A presença contínua de água ao longo dessas fases é um fator determinante para as características finais do produto, incluindo suas propriedades olfativas.
Compostos Voláteis: O Coração do 'Perfume Bibliotesco'
Apesar do extenso uso da água na produção do papel e nos processos subsequentes, uma parte dessa umidade não evapora por completo até o momento em que o livro é selado em sua embalagem final. Essa umidade residual atua como um veículo para a liberação de compostos voláteis quando o livro é finalmente aberto. Esses compostos, que possuem a propriedade de evaporar com facilidade, são os principais responsáveis pela sensação olfativa que se percebe. Dentre os exemplos mais notáveis de substâncias que contribuem para essa fragrância, destacam-se o carbonato de cálcio, um aditivo crucial empregado para conferir ao papel sua característica opacidade, e as próprias fibras de celulose, o elemento estrutural fundamental do papel. São esses elementos, liberados em forma de vapor, que interagem com as narinas humanas, sendo identificados e interpretados como o que popularmente se denomina ‘perfume bibliotesco’.
A Impressão Offset e a Nuance da Tinta no Aroma
A tinta, elemento indispensável para a materialização do conteúdo textual e visual de um livro, também desempenha um papel significativo na formação de seu perfil olfativo. A técnica de impressão mais prevalente na indústria editorial para a produção de livros é a impressão offset. Este método emprega tintas que são predominantemente à base de resina ou óleo, cujas características químicas se somam aos compostos provenientes do papel para enriquecer o aroma final do produto.
O Processo Indireto da Tinta à Base de Resina ou Óleo
O funcionamento da impressão offset baseia-se em um método indireto de transferência da imagem. No cerne desse processo está uma chapa, que contém o design das imagens e o formato das letras a serem impressas. As áreas dessa chapa que não correspondem à imagem ou ao texto recebem uma camada de água. A natureza química dessa água faz com que ela repela a tinta à base de óleo, garantindo que a tinta adira exclusivamente às áreas que efetivamente carregarão a imagem ou o texto. Em uma fase subsequente, essa imagem, já com tinta, é transferida para um cilindro de borracha. Este cilindro, por sua vez, é o responsável por transferir a tinta de forma precisa para as folhas de papel. A composição dessas tintas à base de resina ou óleo, juntamente com os solventes e aditivos que as compõem, libera seus próprios compostos voláteis, que se misturam aos oriundos do papel, contribuindo para a complexidade e a riqueza do cheiro percebido ao abrir um livro novo.
A Influência da Cola e a Diversidade dos Aromas Literários
Embora a cola seja um componente essencial para a integridade estrutural do livro, sua contribuição para a mistura olfativa geral é considerada menor em comparação com a do papel e da tinta. A razão para essa menor influência reside no processo de endurecimento e fixação da cola, conhecido tecnicamente como “cura” da cola. Este processo de cristalização e polimerização ocorre de forma relativamente rápida após a montagem do livro.
A 'Cura' da Cola e a Variação dos Perfumes
Devido à rapidez com que a cola passa por sua “cura”, a quantidade de compostos voláteis que sobram para serem liberados no momento em que o livro é removido do seu invólucro plástico é significativamente reduzida. A maior parte das substâncias odoríferas da cola já foi estabilizada ou evaporada antes que o consumidor tenha contato com o produto final. É fundamental reconhecer que o aroma final de um livro é profundamente dependente dos processos específicos pelos quais ele passou. Por exemplo, a utilização de diferentes tipos de papéis resulta em odores distintos. Dois livros que empregam substratos celulósicos com formulações e tratamentos divergentes não exalarão a mesma fragrância. Essa variação é evidente ao comparar um livro impresso com um caderno escolar, por exemplo, que, devido às suas finalidades e processos de fabricação distintos, possuem cheiros completamente diferentes. Essa dependência do processo reforça a ideia de que o ‘cheiro de livro novo’ não é uma fragrância singular, mas sim uma gama de aromas resultantes da complexa sinergia de seus componentes e técnicas de produção.
Aprofunde seu conhecimento sobre as complexidades da produção de materiais impressos e suas características sensoriais para uma compreensão completa do universo editorial.
FAQ: Perguntas Frequentes sobre o Cheiro de Livro Novo
1. Qual é a principal causa do cheiro de livro novo?
A principal causa do cheiro de livro novo é a liberação de compostos voláteis provenientes da mistura de ingredientes usados no tratamento do papel, da tinta de impressão e, em menor grau, da cola de encadernação. A umidade residual no papel, que não evapora completamente até o embalo, ajuda na liberação dessas substâncias.
2. Quais componentes do papel contribuem para o aroma?
Os componentes do papel que contribuem para o aroma incluem o carbonato de cálcio, utilizado para conferir opacidade ao papel, e as próprias fibras de celulose. Estes elementos são liberados como compostos voláteis, percebidos como parte do ‘perfume bibliotesco’.
3. Como a tinta de impressão influencia o cheiro de livro novo?
A tinta de impressão, especialmente a tinta offset à base de resina ou óleo, contribui para o cheiro de livro novo através da liberação de seus próprios compostos voláteis. O processo de impressão indireto, que utiliza chapas e cilindros de borracha para transferir a tinta para o papel, incorpora essas substâncias ao produto final.
4. Por que a cola tem menor influência no cheiro do livro?
A cola tem menor influência no cheiro do livro porque seu processo de cristalização e endurecimento, conhecido como ‘cura’, acontece rapidamente. Isso significa que a maioria de seus compostos voláteis já foi liberada ou estabilizada antes que o livro seja aberto pelo leitor, restando menos substâncias odoríferas para serem percebidas.
5. O cheiro de livro novo é sempre o mesmo?
Não, o cheiro de livro novo não é sempre o mesmo. O aroma depende diretamente do processo pelo qual o livro passou, incluindo o tipo de papel utilizado. Dois livros que empregam papéis diferentes, por exemplo, não terão o mesmo cheiro, demonstrando a variedade olfativa resultante de distintas técnicas de produção.
Fonte: https://super.abril.com.br



















